Únicas mulheres afro-americanas

Um amigo meu francês me fez uma pergunta sobre o Brasil

2017.01.11 18:27 temperamentalfish Um amigo meu francês me fez uma pergunta sobre o Brasil

Recentemente (um mês e meio atrás, acho), o Netflix estreou a primeira série original brasileira deles, 3%. Essa série não é muito ruim, eu inclusive até gostei (apesar da atuação ser péssima às vezes), então, eu, cheio de orgulho nacional, resolvi sugerir para um amigo meu francês, Paul.
Paul também gostou bastante da série (ele nem percebeu que a atuação às vezes se perde, o que me fez pensar que talvez o fato de eu falar português me faça mais sensível a atuações ruins), e ele me fez uma pergunta muito interessante depois de discutirmos o último episódio. Ele me perguntou, em inglês: "No Brasil vocês têm tanta gente mestiça e de tantas cores diferentes, existe racismo aí?".
É uma pergunta complicadíssima, na minha opinião. Eu respondi que era a grande ilusão brasileira achar que a nossa demografia nos impede de sermos racistas, e que racismo existe sim no Brasil, mas ele é bem mais sutil, bem mais escondido.
Pensei na minha família e na formação étnica dela. A família da minha mãe é toda branca, de portugueses ou espanhóis (não tenho certeza, mas definitivamente de ascendência européia). Meus avós paternos são uma mulher indígena e um homem negro e meu pai é negro de pele clara. A minha pele é morena, não muito escura. A minha irmã de mesmo pai e mesma mãe tem a pele bem branca, e minha meia-irmã (filha do meu pai de outro casamento com uma mulher branca) tem pele bem mais escura que a minha.
A minha configuração étnica é intrinsecamente brasileira, é de uma mistura que raramente seria vista fora daqui. Eu comecei a pensar nos EUA, onde as pessoas costumam carregar sua etnicidade mesmo depois de gerações de pessoas morando lá. Lá é muito comum uma família de pessoas que seriam consideradas brancas aqui no Brasil se subdividirem de acordo com as etnias dos pais ou avós.
Por exemplo, uma pessoa cujos avós são italianos ainda diria para qualquer pessoa que perguntasse "sou italiano" sem falar uma única palavra de italiano, e jamais tendo pisado fora dos EUA.
Por muito tempo eu achei que esse fenômeno fosse a causa de muitos problemas raciais nos EUA, pois poucas pessoas se consideram 100% americanas. É sempre "ítalo-americano", "afro-americano", "nipo-americano", "latino-americano" et cetera.
Mas o Brasil é o completo oposto; eu conheço poucas pessoas que sabem o histórico familiar, e menos ainda que não se consideram 100% brasileiras por ter uma bisavó que veio da Espanha, ou que são tantos por cento indígenas. E mesmo assim existe racismo.
Existem pessoas no Brasil pensando em pureza racial sabendo muito bem que a porcentagem de pessoas pertecentes 100% a qualquer etnia é mínima. Existem pessoas que poderiam ser como minha irmã (de pele branca, com metade da família de pessoas negras ou morenas) e ainda assim com preconceito e racismo.
Eu não sei que conclusão tirar de tudo isso. O que vocês acham? O que vocês teriam dito para esse meu amigo?
Edit: gramática
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